terça-feira, 19 de abril de 2011

Cerejeiras em flor



O Hanami era a festa da cerejeira em flor. Quando os japoneses saíam de suas residências para acharem um lugarzinho nos parques, onde estendiam suas toalhas no chão e faziam belos piqueniques debaixo das cerejeiras. Ali almoçavam vagarosamente, curtindo cada minuto daquela paisagem linda. Era como se o tempo parasse naquele instante, enquanto as crianças brincavam e almoçavam. O dia passava rápido nos parques floridos, onde muitos fotografavam e encontravam os amigos.
 Em vários parques eram vendidas guloseimas e brinquedos, no período da noite, pois os jovens ficam até tarde da noite passeando e bebendo nos parques. As lanternas coloridas, acesas, davam um toque especial ao passeio romântico, e ao mesmo tempo melancólico.
Era interessante observar, e também procurar se adaptar à etiqueta japonesa: jamais jogar lixo ao chão se as lixeiras estivessem lotadas. O certo era recolher o próprio lixo e levá-lo para casa. Assim como observei na praia. Os japoneses também nunca se sentam em cima da raiz das árvores, pois pode matá-la ou prejudicar o seu crescimento. Também não se deve apanhar nenhum galhinho das cerejeiras, só porque alguém achou bonito, pois a quebra de um raminho pode prejudicar o galho inteiro, e consequentemente a árvore inteira. Isso era muito observando pelos japoneses.
Quanto à fotografia, esta é outra coisa muito respeitada por aqui, no Japão. Eles param pacientemente, enquanto você tira fotos. E se você pedir para um deles tirar uma foto da família inteira, eles o fazem com muito prazer. Procuram se concentrar e fotografar da melhor maneira possível. A beleza natural aqui é tão fugaz, que eles fazem questão de registrar tudo, cada segundinho daquela temporada. E passam horas com suas câmeras, esperando pelo momento certo da queda de uma folha, ou de um vento mais forte, da melhor luz, etc. É admirável notar esta faceta sensível do povo japonês.
Vale à pena ficar apreciando, calada, as diversas árvores que apresentam flores de cores diferentes; desde o cor de rosa bem acentuado, aos brancos como a neve. Uma coloração de rosa-bebê muito linda, e também cores mais puxadas para o lilás. Há uma espécie lindíssima que parece um chorão, com flores rosas que caem ao chão, como numa cascata.
Emocionante também é caminhar pelas ruas, quando as pétalas também estão caindo das árvores, e observar aquele tapete de pétalas. E, se tiver sorte poder receber uma linda chuva de pétalas cor de rosa sobre o corpo parado, ao sopro de uma brisa suave.  Deixei que isso acontecesse diversas vezes comigo. Estava ao lado do meu filhinho e era uma das sensações mais gostosas que já sentira da vida. Este amor pela natureza havia herdado do meu pai, e agora estava repassando-o ao meu filho.
Muitas vezes caminhei por aqueles caminhos cor de rosa para o meu trabalho. Apreciava toda aquela beleza deslumbrante enquanto me esquecia, por alguns segundos, tudo o que teria de enfrentar no novo serviço, entretida com aquele espetáculo da natureza, que durava aproximadamente duas semanas; um espetáculo de força da natureza, de imensa beleza.
No final de semana eu e meu filho acordávamos cedinho e íamos até o belo parque que havia próximo a nossa casa. Passávamos o dia todo lá, comprávamos os nossos lanches e fazíamos nossos piqueniques. Quando o vento batia recebíamos aquela linda chuva de pétalas cor de rosa, cor de Sakura, da belíssima flor-símbolo do país que anunciava ao mundo que a primavera tinha chegado.
Todos que moram no Japão há algum tempo já tiveram a oportunidade de vivenciar essa dádiva da natureza, e ver como é bom para o coração esse momento.


texto retirado do meu livro Caminhada- Duas faces de uma vida no Japão.

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